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Estudo - Caminhos de Peregrinação

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Caminhos Antigos e de Peregrinação das Terras do Sousa

O território do Vale do Sousa teve, ao longo dos séculos, um papel de charneira na ligação entre as comunidades a sul do Douro e aqueles que se estendiam para norte para a fronteira do Minho, na sua grande maioria uma rede viária herdada do Império Romano. A qualidade da terra e a amenidade do clima ajudou à fixação das populações e à multiplicação das comunidades (villae-ecclesia) as antepassadas das futuras paróquias. Com elas nasceram novas centralidades e novos caminhos, muitos deles a persistir apesar de adaptadas às realidades actuais.

Até meados do século XIX o Entre-Douro-e-Minho viveu de uma rede viária e cuja ancestralidade recua, em alguns casos, a tempos anteriores à fixação romana na Península Ibérica. Foram estes, todavia, os verdadeiros introdutores do conceito de viação ao dividir as estradas em categorias tão abrangentes, como estradas principais e secundárias, vicinais e privadas. São os romanos os responsáveis primários pela construção de pontes sólidas e duradouras – a Ponte do Arco de Vila Fria (Felgueiras) é um bom exemplo – que foram inspiradoras de outras futuras técnicas pontísticas que tiveram expressões, bem vincadas, no período românico e gótico.


A rede viária antiga do velho Entre-Douro-e-Minho é o reflexo da realidade política de um país que foi talhado de norte para sul e a herdeira natural da localização exacta dos antigos centros de poder romano, sedes de conventus e de província. Acentuou-se com a descoberta do túmulo do apóstolo São Tiago em Compostela e com os principais centros de peregrinação em terras de Portugal: São Torcato, Nossa Senhora da Abadia, Nossa Senhora da Oliveira. Difundiram-se com a multiplicação das casas conventuais, primeiro, dos Beneditinos e dos Cónegos Regrantes de Santo Agostinho, depois dos Franciscanos e dos Dominicanos. Mosteiros como Paços de Sousa, Bustelo, Cete, Caramos, Ferreira e Pombeiro ditaram as suas leis do mesmo modo que comunidades, mais prósperas, capazes de erguer igrejas ao bom estilo românico, também foram capazes de determinar traçados viários, muitos deles nascidos nesse período e apoiados por pontes que facilitavam a transposição de rios e regatos. Estas, obra dos interesses monásticos, senhoriais ou régios, ou obra já de testamentos de figuras gradas da sociedade, facilitaram o trânsito de bens e de pessoas, de almocreves, de exércitos e de peregrinos, que caminhavam para Santiago de Compostela ou procuravam atingir certa e determinada localidade. Nestas, o corpo incorrupto de um santo ou um fenómeno de difícil explicação, trazia o sobrenatural para a latitude humana do povo sofredor e prodigalizava às igrejas os benefícios tão necessários à sua subsistência material.

O território do Vale do Sousa teve, ao longo dos séculos, um papel de charneira na ligação entre as comunidades a sul do Douro e aqueles que se estendiam para norte para a fronteira do Minho, na sua grande maioria uma rede viária herdada do Império Romano. A qualidade da terra e a amenidade do clima ajudou à fixação das populações e à multiplicação das comunidades (villae - ecclesia) as antepassadas das futuras paróquias. Com elas nasceram novas centralidades e novos caminhos, muitos deles a persistir apesar de adaptadas às realidades actuais.


Caminho 01

Esta era uma das principais vias estruturantes que servia o interior da actual província do Minho e ligava Emerita Augusta (Mérida) / Tongobriga (Marco de Canaveses) / Bracara Augusta (Braga). Está relativamente bem documentada, tanto a nível patrimonial como documental, e a sua fundação datará da época dos Flávios. No seu percurso passa por alguns locais de interesse patrimonial como o antigo convento de Caramos, o mosteiro do Pombeiro, onde se recolhiam peregrinos, e a ponte romana do Arco (Vila Fria).

Caminho 02

Via de origem romana que emerge do sul por Arouca e Castelo de Paiva, entrando no Vale do Sousa pelos concelhos de Penafiel, Paredes e Lousada, seguindo depois por Vizela, Guimarães e Braga. Do ponto de vista patrimonial destaca-se a Cividade de Eja, as Termas Romanas de São Vicente, a Igreja Românica de São Miguel de Entre-os-Rios, a Honra de Barbosa, a Capela de
Santa Luzia, entre outros.

Caminho 03

Esta via, vulgarmente conhecida como a “estrada do Porto”, tem ascendência romana e desempenhou um papel extremamente importante nas ligações entre o Porto e o interior de Trás-os-Montes. Atinge o território do Vale do Sousa em Paredes e Penafiel e do ponto de vista patrimonial tem nas suas proximidades o castro do Muro de Vandoma o dólmen do Padrão, a Casa de Bragança, uma antiga estalagem, a ponte de Cepeda, esta de origem medieval, entre outros.

Caminho 04

Vinda de Valongo, esta via entrava no Vale do Sousa pelos concelhos de Paredes e Paços de Ferreira, seguindo depois por Santo Tirso, Guimarães e Braga. A origem deverá ser a romana, tendo em conta a abundância de vestígios arqueológicos desse perío-do: a necrópole romana de Bouçós, a necrópole romana do Crasto (Frazão), a necrópole romana de Isqueiros (Eiriz). Do ponto de vista patrimonial merece destaque a ponte das Penhas Altas o dólmen da Leira Longa, também conhecido por Forno dos Mouros (Lamoso), a mamoa do Taio (Frazão) e a Torre dos Alcoforados que foi sede da antiga Honra dos Brandões.

Caminho 05

Proveniente das imediações de Marco de Canavezes, esta via introduz-se no Vale do Sousa pelos concelhos de Penafiel, Lousada e Felgueiras. A sua cronologia é a romana, pois era servida pela ponte romana de Barrimau e deveria ter como destino final Bracara Augusta (Braga). No seu trajecto passava nas imediações das igrejas de São Martinho de Recezinhos (Penafiel), de Aveleda (Lousada) e de Unhão, todas elas com reminiscências medievais claras.

Caminho 06

Depois de transpor o Rio Douro em Rio Mau, aproveitando a passagem proporcionada pela barca de Pedorido, esta via entrava em pleno Vale do Sousa pelo concelho de Penafiel e seguia depois por Paredes e Paços de Ferreira e Santo Tirso, onde atravessava o Rio Vizela na ponte romana de São Martinho do Campo. A sua origem deverá ser a romana, a julgar pelas várias referências documentais existentes e pelos testemunhos patrimoniais que abundam ao longo do seu trajecto. Deles se destacam a mamoa de Ramos (Baltar), também conhecida por Cavada da Oira, as minas das Banjas, com vestígios de mineração romana (Sobreira) e um pouco mais à frente a pequena capela de Santa Comba (Sobreira), onde apareceram duas Aras datáveis do mesmo período. Merece ainda destaque as necrópoles romanas do Calvário e do Tanque, ambas em Baltar, a ponte da Casconha, que na essência é medieval (Sobreira) e o mosteiro de Ferreira, entre outros.

Caminho 07

Esta via tem o mesmo ponto de partida da via 06. Depois de atravessar o Rio Douro seguia por Rio Mau, subia à Serra das Banjas e um pouco à frente do lugar de Santa Comba deixava o trajecto da via 06. Tomava então a direcção da pequena povoação de Alvre e transpunha o Rio Sousa numa ponte de origem medieval que toma o nome do lugar. Daqui, ia em direcção à antiga vila e necrópole da Corredoura (Valongo), atravessava o Rio Ferreira na ponte da Morte (São Martinho do Campo, Valongo) e seguia depois para Norte, na direcção de Santiago da Carreira e do Monte Córdova. Transpunha depois o Rio Vizela na ponte romana de São Martinho do Campo (Santo Tirso), de onde se podia ir para Braga ou Guimarães.

Caminho 08

Esta via é bastante antiga e tem o seu ponto de partida inicial em Melres (Gondomar). Seguia depois por Aguiar de Sousa e passava nas imediações do seu antigo castelo, que segundo a tradição foi tomado na Era de 1033 por Almansor. Mais à frente, já no concelho de Valongo, passava nas proximida-des da Serra de Santa Justa, onde a exploração mineira romana talhou para sempre a paisagem. Nesta via destacam-se do ponto de vista patri-monial a torre do antigo Castelo de Aguiar e o pequeno templo dedicado à Senhora do Salto.

Caminho 09

Esta via tem a sua origem em Entre-os-Rios, partindo daí para o Alto de Perafita através da Ponte de Matos. Passava junto ao Cruzeiro das Lampreias e mais à frente na medieva igreja de Cabeça Santa. Depois do Alto da Perafita tomava a direcção de Santa Marta, do mosteiro de Bustelo e da ponte de Espindo. Seguia depois para Boim e para o centro da sede do actual concelho de Lousada. Mais à frente subia para o Bom Jesus de Barrosas, descendo aí com destino à ponte velha de Vizela ou à ponte nova de Tagilde, ambas medievais. Em termos patrimoniais merecem destaque as igrejas de Cabeça Santa e de Boim, ambas com reminiscências medievais, o dólmen e as sepulturas medievais da Portela (Santa Marta), a ponte de Santa Marta, o mosteiro de Bustelo, a ponte medieval de Espindo e o Bom Jesus de Barrosas, entre outros.

Caminho 10

Esta via deverá remontar à parte final do período medieval ou aos inícios da época moderna e tudo indica que terá servido como variante e como alternativa à antiga estrada romana que atravessava o Rio Vizela na ponte do Arco. Trata-se em todo o caso da antiga estrada real que seguia para Guimarães e ao longo do seu percurso pode-se sobretudo apreciar a ponte de Vila Fria, reconstruída à meia dúzia de anos, depois de ter sido vencida pelas agruras dos tempos.

Caminho 11

Esta via tem pelo menos uma origem medieval assegurada. Atravessa uma pequena crista do território do Vale do Sousa através do concelho de Felgueiras, mas nem por isso perde a sua importância, pois tratava-se de um ramal da antiga estrada real do Porto que aqui servia as localidades de Vizela e Fafe, estabelecendo a ligação entre as várias pontes e vias que existem na região. Do ponto de vista patrimonial destacam-se as pontes de Vila Fria, do Arco, de São João e de Jugueiros, todas elas antigas.

Caminho 12

Via bastante antiga, cuja ancestralidade se pode encontrar entre os momentos construtivos da ponte romana de São Martinho do Campo (Santo Tirso), da pequena capela de Santiago (Louredo) e do mosteiro de São Pedro Ferreira, estes últimos claramente de ascen-dência medieval. Do ponto de vista patrimonial merece visita a capela de Santiago e o mosteiro de São Pedro de Ferreira, ambos com testemunhos alusivos às peregrinações e ao caminho a Santiago de Compostela. Freamunde, cuja tradição coloca as origens no período suevo-visigótico, é também um importante centro a visitar.

Caminho 13

Esta via facilmente se confunde com a via 05 na medida em que corresponde a uma rectificação do antigo traçado romano. A implantação da medieva igreja paroquial de Aveleda e do seu pequeno burgo no local onde se encontram poderá estar na origem dessa rectificação e já nos alvores da época moderna na da ponte de Vilela, que servia na região o trânsito que ia para Guimarães. Do ponto de vista patrimonial destacam-se sobretudo a ponte de Vilela, a igreja de Aveleda, a capela de São Gonçalo (Macieira) e o Bom Jesus de Barrosas.

Caminho 14

Via com clara ascendência tardo-romana, se não for mesmo anterior, na medida em que servia a igreja de Meinedo, igreja esta que já vem mencionada em 572, no Paroquial Suévico. O seu trajecto insere-se no Vale do Sousa percorrendo os concelhos de Paredes, Penafiel, Lousada e Felgueiras, e destaque-se ao longo do seu percurso a igreja de Meinedo, a ponte de Espindo (Bustelo), a ponte de Vilela (Aveleda) e a Igreja de Caíde de Rei como provas da sua própria medievalidade.

Caminho15

Via de origem medieval que traça a sua viagem pelo Vale do Sousa através dos concelhos de Penafiel, Paredes e Paços de Ferreira, deixando a sua marca sob a forma de indícios patrimoniais ímpares, seguindo depois em direcção a Santo Tirso, Guimarães e Braga. Inicia o seu trajecto no mosteiro de Paço de Sousa, onde transpunha o Rio Sousa na ponte do Vau. Transposto o rio neste sítio, a via tomava a direcção do mosteiro de Cete, seguia depois em direcção ao mosteiro de Ferreira, passava em São Miguel de Negrelos e transpunha o Rio Vizela na ponte romana de São Martinho do Campo, onde seguia para o mosteiro de Serzedelo e depois dele para as localidades de Guimarães e Braga.

Caminho 16

Esta é uma via medieval que servia de ligação entre dois antigos itinerários romanos. A sua cronologia está patente na documentação, na toponímia e nos vestígios patrimoniais dos quais se podem destacar as pontes medievais da freguesia de Jugueiros (Felgueiras) – a Ponte de S. João e a Ponte de Travassós. Transposto o rio nestas pontes a via podia seguir em direcção a Fafe, a Guimarães ou a Braga. Do ponto de vista patrimonial merece ainda visita demorada a villa romana de Sendim (Felgueiras).

Caminho 17

Esta via é de ascendência medieval e entrava no Vale do Sousa ao fazer a travessia do Rio Tâmega na conhecida Barca da Ribeira, freguesia de Rio de Moinhos. Depois de transposto o Rio Tâmega o antigo caminho subia para o centro de Rio de Moinhos, passava junto ao Cruzeiro das Lampreias e em Oldrões germinava-se com a estrada romano-medieval que vinha de Entre-os- -Rios pela Cividade de Eja.

Caminho 18

Via cuja medievalidade se encontra alicerçada na documentação e na românica igreja de Boelhe. Fazia a sua aparição no território do Vale do Sousa através da denominada Barca da Várzea, com a qual se procedia à travessia do Tâmega. Passava junto à capela de Passinhos e depois desta junto à igreja velha de Boelhe e à igreja de Luzim. Além da natural obrigatoriedade de visita à igreja de Boelhe, destacam-se também os vários monumentos megalíticos existentes em Luzim e que não ficam muito longe desta via.

Caminho 19

Esta via intromete-se no actual território do Vale do Sousa através da Barca de Travassos, também conhecida pelo nome de Barca de Canguedo. Transposto aí o Rio Tâmega, a antiga estrada, de ascendência medieval comprovada, seguia na direcção da igreja de São Pedro de Abragão, igreja esta que segundo a tradição foi mandada construir no ano de 1170 pela rainha Dª Mafalda. Seguia depois por Vila Cova e Milhundos, até chegar ao centro da localidade que é hoje Penafiel. Do ponto de vista patrimonial merece destaque os vestígios medievais patentes na cabeceira da igreja de Abragão e o túmulo de pedra que se encontra no adro, onde jaz o Dr. Ambrosio Vaz Golias, natural de Guimarães e responsável pela reedificação da igreja no ano de 1668.

Caminho 20

Esta via data da época moderna e a sua origem deverá estar relacionada com a rectificação do antigo traçado medieval que passava mesmo em frente da igreja de Cabeça Santa. Assim, partindo conjuntamente com a via 17 da Barca da Ribeira, subia para Rio de Moinhos e deixava esta mesma via no Cruzeiro das Lampreias para tomar a estrada que serve as localidades de Perozelo e Duas Igrejas.

Caminho 21

A antiguidade desta via justifica-se por uma antiga passagem a vau que existia na região e que dava serventia a um caminho que vinha do mosteiro de Paço de Sousa e pela presença da pequena ermida da Senhora do Vale e do seu cruzeiro, ambos em Cete. Destacam-se ao longo desta via a capela de Santa Luzia, ainda em Paço de Sousa, e a Senhora do Vale, um templo cujas origens remanescentes remontam à centúria de quatrocentos.

Caminho 22

Esta via, depois de transpor o Rio Douro na antiga barca de Pedorido, irrompia pela Serra da Boneca acima, até chegar às imediações da pequena e rusticada aldeia de Cabroelo. Passava depois pelas freguesias de Capela, Lagares e Fonte Arcada, indo ter ao mosteiro de Paço de Sousa. Ao longo do seu trajecto merece destaque a pequena capela de São Pedro de Pegureiros, no alto da Serra da Boneca (Canelas), a aldeia de Cabroelo, a igreja de Lagares, onde abundam vestígios da época romana, e o mosteiro de Paço de Sousa em cujo portal principal se encontra iconografia relacionada com os caminhos de Santiago.


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